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animais estrangulados, matérias plásticas, um tijolo com os furos cheios de avencas. um cão atropelado, manchas de sangue seco, o fundo do tanque de cimento, o perfume de roupa lavada. uma sombra debruça-se para o tanque em cima da mesa os óculos, a régua que pertenceu ao avô, a resma de papel, a colher de prata lavrada, uma lâmpada fundida, água. mais água, um envelope molhado, as canetas, os lápis, a máquina de escrever. tornou-se difícil prever até onde os olhos conseguem nomear, arquivar, arrumar para sempre os pequenos resíduos da adolescência. hoje escrever é um acto nortuno. respiro dolorosamente. escrevo sempre deitado ou encolhido sobre a mesa. o silêncio e as sombras deslizam a minha volta. espreitam por cima do ombro para verem o que estou a escrever. ouço a música que vem do fundo da minha solidão. música aquática, arestas de sangue, medrosos dedos tamborilando nos vidros poeirentos. teu nome, este som frio de árvores esfacelando a cal das paredes. escrevo com o medo e o susto dentro de cada palavra. a vida atinge a espiral vertiginosa da noite. é esta palavra que me serve para te nomear e não outra: medo. os textos progridem com a desolação da casa, latejam sobre o papel, doem-me os dedos e os olhos, os orgãos do corpo que nuca vi. o peito desgasto pela doença. por uma fenda nas madeiras cresce a alba. perfura, entra pela janela, devassa a intimidade penumbrosa do quarto. paro de escrever, estou muitíssimo cansado. na exaustão da noite dei comigo a enumerar as coisas amadas. ponho-as nos lugares onde sempre estiveram, dou-lhes uma idade, uma utilização, e antes que a manhã se abata sobre a casa recrio o mundo. depois, espero o sono. incham-me as pálpebras, adivinho os sonhos anteriores à minha idade. o corpo escorrega pelo abismo florido das galáxias. nada sei de mim durante essas horas. absolutamente nada.
Al Berto
quando lí pela primeira vez esse foi o texto do Al Berto que mais me assustou, senti o medo como um peso na ponta do colchão
senti quando se sentou ao seu lado ao escrever e como me tinha no colo naquele momento enquanto lia
toda minha vida foi escrita mesmo que loucamente pelo lado de dentro sem ordem nem caos
mas quando eu li O Medo senti uma compania absurda, pensei no Caio Fernando, pensava tanto nele que tinha medo de ficar no escuro e ver uma brasa de cigarro
os dois conversavam através do tempo através de mim
é como aquele descrição (Mal de Montano) onde um escrito morto vem assombrar alguém que está a escrever e lhe sopra no ouvido novas histórias porém suas
porém mortas e novas
a diferença entre os dois não é tanta e creio que em algum momento o Caio leu Al Berto
as nunca vi nenhuma citação ou comentário
mas o tormento causado é o mesmo e eu me sinto tão feliz por ter o livro por ter ganhado o livro de alguém que é tão importante pra mim
esse ano eu me sinto livre, livre até mesmo de mim =*
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